Oi D***
Bateu saudade. Como vão as coisas? Boas novas? Daqui não tão novas. Peguei gripe. Não foi suína, profunda humilhação seria para um corintiano, mas foi suficiente para deixar uma tosse das mais irritantes. Boa notícia: leio mais. Sobra tempo à noite às vezes durante a semana e eu leio: livros, artigos de revistas, jornais de ontem, e papeladas de modo geral. É bom ler. As letras me absorvem e tenho a impressão de entrar num papo inteligente com alguém íntimo. Intelectualmente íntimo apenas. Boa sensação. E, imagine um papo sem gerúndios. Humores sutis e o silêncio das idéias. Não sei se você concorda, mas idéias são silenciosas, se alimentam do silêncio e buscam expressão muda, fixa, impressa. Frases também interessam. Fico admirado cada vez que ouço uma frase bem cunhada. O resumo do todo na frase. Se o bom Platão estiver certo e existir o tal do demiurgo, algumas frases são chaves de suas caixinhas arquetípicas. Abrem o ferrolho do conhecimento, da apreensão da idéia. Por isso eu leio. Simplesmente porque dá prazer. Ontem li sobre o Tolstoi. Imagine que em Guerra e Paz ele cria em torno de quinhentos personagens. Um gênio. Li há muito. Uma vez eu ouvi de uma amiga: leia os clássicos! Obedeci e li. Agradeço a ela até hoje. Dos vivos eu leio pouco. Exceção é o Philip Roth. Saiu um novo que acabei de ler; Indignação. Bom, muito bom. O Raymundo Faoro, intelectual de primeira linha que tive o privilégio de conhecer no fim da vida, também me ronda com seu Os Donos do Poder. É ler o Faoro e entender na hora o que acontece no senado. Eles não são assim, pulhas e escroques. Nós somos assim. Eles são nosso espelho. Fomos subdesenvolvidos. Passamos a terceiro mundo (não sei bem quem era o segundo mundo), viramos “em desenvolvimento” e agora somos emergentes. Somos, de fato, “submergentes”. Submergimos no consumo importado do norte, na malandragem nossa, no ritmo e no sexo indolente de nossas meninas. O Brasil vai. Que vai, vai, mas, e nós? Vamos com ele ou só eles vão com ele? Eu não vou. Fico em casa lendo e, vez por outra, mando e-mail para a Daisy que, sabe-se lá como, tem paciência para ler-me. Fora isto, um chopinho quando a tosse sarar e um cantinho na Vila para morar. É o suficiente. Enquanto existirem as letras e alguém para combiná-las, haverá o que ler, que é prazer, que, em resumo é viver. Não sei por que, antes de terminar, lembrei do Borges, dos seus labirintos, do universo que ele também chamava de biblioteca. É um que faz falta. Acho que o tal labirinto espelha o momento. Muita atividade, caminhos e mais caminhos e para onde? Sem falar no Minotauro que lá vive e, se nos encontra, nos devora. Nosso maior: Guimarães Rosa disse: “viver é muito perigoso”. Pois não é que ele tinha razão!
Beijos
Dos amigos
(***) trabalhando para viver e
Alexandre Bloom fazendo força para nascer.
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