segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
sábado, 25 de julho de 2009
FAZ FRIO LÁ FORA
Olá (***)
Faz frio lá fora. O frio é o símbolo da solidão, do inóspito da alma, do encolher. Interessante que os sós, ou melhor, os com frio, se encolhem. Buscam esconderijo. O frio nem sempre diminui com o casaco ou a manta. Muitos, mesmo que não o sintam na pele, sentem que está lá. Está próximo, ameaça. Paira a sombra. Reparei que quem sente frio, está sempre com frio, não importa quanta roupa use ou com quantos cobertores se cubra. Com os sós se passa o mesmo. Não importa com quantas pessoas convivam, quantos tenham ao redor. São sós e quando despem as máscaras, se escondem. Alguns ficam nas tocas, outros na multidão das baladas, das “discos”, das igrejas, anônimos na multidão . Há também o trabalho. Como não há nada, há o trabalho que vira a vida, tudo na vida. Outros cobertores da alma podem ser encontrados nos becos: drogas, leves e pesadas, legais e ilegais, sexo breve, triste, fisiológico. Os com frio querem sair do ambiente, ir para outro lugar, querem calor. Os sós também querem partir. Querem ir aonde haja alguém. Não sei bem por que, não vão. Ficam e sentem seu frio, como que cumprindo uma sentença pelo crime de viver. Os que sentem frio, muitas vezes não querem o casaco. Querem que o planeta respeite seu julgamento do que é certo e justo. O frio não é justo, portanto, tem que esquentar. E não esquenta e passam frio. E os solitários fazem o mesmo. O mundo tem que se comportar do outro jeito. Do jeito que escolheram para ser o jeito certo. O mundo não se comporta e eles punem o mundo ficando sós. E ficam amargos porque o mundo não lhes dá a mínima. E não é justo. O frio deixa doente, a solidão precisa ficar doente. Moro sozinho e já morei junto. Sei o que é ser só junto e se sentir acolhido só. Ontem fazia frio lá fora, porém, em minha sala estavam meus livros, minha música, meus filmes. Ao alcance da mão o telefone e amigos para ligar, o computador e o mundo através da tela. Fazia um calor delicioso em minha sala. Oxalá, o mesmo calor aqueça o coração dos solitários, mesmo que vivam sós.
Beijos
Alexander Bloom.
Faz frio lá fora. O frio é o símbolo da solidão, do inóspito da alma, do encolher. Interessante que os sós, ou melhor, os com frio, se encolhem. Buscam esconderijo. O frio nem sempre diminui com o casaco ou a manta. Muitos, mesmo que não o sintam na pele, sentem que está lá. Está próximo, ameaça. Paira a sombra. Reparei que quem sente frio, está sempre com frio, não importa quanta roupa use ou com quantos cobertores se cubra. Com os sós se passa o mesmo. Não importa com quantas pessoas convivam, quantos tenham ao redor. São sós e quando despem as máscaras, se escondem. Alguns ficam nas tocas, outros na multidão das baladas, das “discos”, das igrejas, anônimos na multidão . Há também o trabalho. Como não há nada, há o trabalho que vira a vida, tudo na vida. Outros cobertores da alma podem ser encontrados nos becos: drogas, leves e pesadas, legais e ilegais, sexo breve, triste, fisiológico. Os com frio querem sair do ambiente, ir para outro lugar, querem calor. Os sós também querem partir. Querem ir aonde haja alguém. Não sei bem por que, não vão. Ficam e sentem seu frio, como que cumprindo uma sentença pelo crime de viver. Os que sentem frio, muitas vezes não querem o casaco. Querem que o planeta respeite seu julgamento do que é certo e justo. O frio não é justo, portanto, tem que esquentar. E não esquenta e passam frio. E os solitários fazem o mesmo. O mundo tem que se comportar do outro jeito. Do jeito que escolheram para ser o jeito certo. O mundo não se comporta e eles punem o mundo ficando sós. E ficam amargos porque o mundo não lhes dá a mínima. E não é justo. O frio deixa doente, a solidão precisa ficar doente. Moro sozinho e já morei junto. Sei o que é ser só junto e se sentir acolhido só. Ontem fazia frio lá fora, porém, em minha sala estavam meus livros, minha música, meus filmes. Ao alcance da mão o telefone e amigos para ligar, o computador e o mundo através da tela. Fazia um calor delicioso em minha sala. Oxalá, o mesmo calor aqueça o coração dos solitários, mesmo que vivam sós.
Beijos
Alexander Bloom.
quarta-feira, 8 de julho de 2009
Nasci
Oi D***
Como a gripe melhorou, mas ainda não me largou, resolvi sair mais cedo do trabalho. Entrei no Blog. Legal. Na verdade meu nome é Alexander e não Alexandre, mas se não dá para mudar mantemos assim. Mais um pagão debaixo do céu. Nasci. É interessante pensar que meus pensamentos foram transformados em algum código hexadecimal e estão armazenados em algum disco em algum lugar que eu nunca saberei onde é. Cool. Mudando de assunto: parece que enterraram o Michael Jackson. Eu lamento que o tenham enterrado. Não deveriam. Ele deveria ser transformado em múmia cibernética e deveria ficar em algum parque de Los Angeles. Temático e caro, claro. Quem sabe a Neverland começasse a dar algum. Em vida não rolou, mas com o mocinho se mexendo dentro de um aquário, sorrindo e dando tchau eu aposto que estourava. Quando nosso mais pop comuna morreu os soviéticos o mumificaram e deixaram na Praça Vermelha até alguns anos atrás. Uma linda múmia do camarada Lênin com seu traje típico, barbicha e tudo mais. O símbolo da revolução, do mundo novo, da vanguarda política revolucionária. Filas diárias se formaram até a Perestroika para ver o camarada que acabou enterrado pela própria. O Michael é a mesma coisa. Nosso Lênin pop, movimentando as massas em direção ao frisson máximo. De negão com nariz batatinha e cabelo “black power” a andrógino pop foi uma dura jornada. Cirurgias, tratamentos, dólares aos quilos. Nosso líder máximo da revolução andrógina embaixo da terra. Desperdício. Na verdade ele já não era dele. Era nosso. O caçula do Jackson Five já tinha morrido há muito. Quando ele clareou, se abandonou e passou a ser nosso. Via mídia, mas nosso. Tenho que confessar que nos idos da Banana Power e da Tamatete em São Paulo eu bem que tentei andar para traz e seguir em frente como o Michael. Parecia mágica. Pesinhos pra traz e o garoto se deslocando pra frente. Até hoje acho que é mágica. Nunca consegui. De qualquer modo, honra seja feita, o cara tinha talento. Talento e um pai que lhe colocava para saracotear doze horas por dia. Funcionou. Ficaram os milhões e os órfãos do Michael que, pelo que li, não eram dele. Sempre achei aquele sujeito assexuado. Se alguma sexualidade existia ali, ficará em sepulto segredo. Do que é que ele gostava? Melhor não especular e não descobrir. Deixa pra lá. Os editores estão animadíssimos. Agora começarão a sair as autorizadas e não autorizadas biografias do Michael, depoimentos da babá e a biografia dela, a história da mãe de aluguel, os segredos do pai do Michael e por aí vai. Teremos os filmes: o filme da vida dele, o filme que contará a história secreta do doador do esperma que gerou os filhos dele. Este provavelmente com o mesmo ator do Código Da Vinci mostrando o simbólico deste pau abençoado. Virão os “covers” e o culto ao estilo Michael de ser. Fábricas de gel para cabelo com as ações bombando. Elvis que se cuide. Vai ficar pra traz. Nunca tive um disco do Michael e não está no meu ipod, mas não desgostava. Como enterraram, o que, repito, lamento, resta sugerir que seja beatificado e, quem sabe, canonizado. Seria legal mudar um pouco o tom dos santos de praxe. Uma auréola Prada ou Dior, bem fininha, bem que cairia bem sobre os óculos escuros. Se for preciso comprovar alguns milagres para virar santo, de cara já aponto um: o cara de preto virou branco. Só pode ser milagre. São Michael. Agora temos quem idolatrar. Amém. Fico por aqui minha cara que a novela vai começar.
Beijos do Bloom
Como a gripe melhorou, mas ainda não me largou, resolvi sair mais cedo do trabalho. Entrei no Blog. Legal. Na verdade meu nome é Alexander e não Alexandre, mas se não dá para mudar mantemos assim. Mais um pagão debaixo do céu. Nasci. É interessante pensar que meus pensamentos foram transformados em algum código hexadecimal e estão armazenados em algum disco em algum lugar que eu nunca saberei onde é. Cool. Mudando de assunto: parece que enterraram o Michael Jackson. Eu lamento que o tenham enterrado. Não deveriam. Ele deveria ser transformado em múmia cibernética e deveria ficar em algum parque de Los Angeles. Temático e caro, claro. Quem sabe a Neverland começasse a dar algum. Em vida não rolou, mas com o mocinho se mexendo dentro de um aquário, sorrindo e dando tchau eu aposto que estourava. Quando nosso mais pop comuna morreu os soviéticos o mumificaram e deixaram na Praça Vermelha até alguns anos atrás. Uma linda múmia do camarada Lênin com seu traje típico, barbicha e tudo mais. O símbolo da revolução, do mundo novo, da vanguarda política revolucionária. Filas diárias se formaram até a Perestroika para ver o camarada que acabou enterrado pela própria. O Michael é a mesma coisa. Nosso Lênin pop, movimentando as massas em direção ao frisson máximo. De negão com nariz batatinha e cabelo “black power” a andrógino pop foi uma dura jornada. Cirurgias, tratamentos, dólares aos quilos. Nosso líder máximo da revolução andrógina embaixo da terra. Desperdício. Na verdade ele já não era dele. Era nosso. O caçula do Jackson Five já tinha morrido há muito. Quando ele clareou, se abandonou e passou a ser nosso. Via mídia, mas nosso. Tenho que confessar que nos idos da Banana Power e da Tamatete em São Paulo eu bem que tentei andar para traz e seguir em frente como o Michael. Parecia mágica. Pesinhos pra traz e o garoto se deslocando pra frente. Até hoje acho que é mágica. Nunca consegui. De qualquer modo, honra seja feita, o cara tinha talento. Talento e um pai que lhe colocava para saracotear doze horas por dia. Funcionou. Ficaram os milhões e os órfãos do Michael que, pelo que li, não eram dele. Sempre achei aquele sujeito assexuado. Se alguma sexualidade existia ali, ficará em sepulto segredo. Do que é que ele gostava? Melhor não especular e não descobrir. Deixa pra lá. Os editores estão animadíssimos. Agora começarão a sair as autorizadas e não autorizadas biografias do Michael, depoimentos da babá e a biografia dela, a história da mãe de aluguel, os segredos do pai do Michael e por aí vai. Teremos os filmes: o filme da vida dele, o filme que contará a história secreta do doador do esperma que gerou os filhos dele. Este provavelmente com o mesmo ator do Código Da Vinci mostrando o simbólico deste pau abençoado. Virão os “covers” e o culto ao estilo Michael de ser. Fábricas de gel para cabelo com as ações bombando. Elvis que se cuide. Vai ficar pra traz. Nunca tive um disco do Michael e não está no meu ipod, mas não desgostava. Como enterraram, o que, repito, lamento, resta sugerir que seja beatificado e, quem sabe, canonizado. Seria legal mudar um pouco o tom dos santos de praxe. Uma auréola Prada ou Dior, bem fininha, bem que cairia bem sobre os óculos escuros. Se for preciso comprovar alguns milagres para virar santo, de cara já aponto um: o cara de preto virou branco. Só pode ser milagre. São Michael. Agora temos quem idolatrar. Amém. Fico por aqui minha cara que a novela vai começar.
Beijos do Bloom
terça-feira, 7 de julho de 2009
A primeira carta do Bloom
Oi D***
Bateu saudade. Como vão as coisas? Boas novas? Daqui não tão novas. Peguei gripe. Não foi suína, profunda humilhação seria para um corintiano, mas foi suficiente para deixar uma tosse das mais irritantes. Boa notícia: leio mais. Sobra tempo à noite às vezes durante a semana e eu leio: livros, artigos de revistas, jornais de ontem, e papeladas de modo geral. É bom ler. As letras me absorvem e tenho a impressão de entrar num papo inteligente com alguém íntimo. Intelectualmente íntimo apenas. Boa sensação. E, imagine um papo sem gerúndios. Humores sutis e o silêncio das idéias. Não sei se você concorda, mas idéias são silenciosas, se alimentam do silêncio e buscam expressão muda, fixa, impressa. Frases também interessam. Fico admirado cada vez que ouço uma frase bem cunhada. O resumo do todo na frase. Se o bom Platão estiver certo e existir o tal do demiurgo, algumas frases são chaves de suas caixinhas arquetípicas. Abrem o ferrolho do conhecimento, da apreensão da idéia. Por isso eu leio. Simplesmente porque dá prazer. Ontem li sobre o Tolstoi. Imagine que em Guerra e Paz ele cria em torno de quinhentos personagens. Um gênio. Li há muito. Uma vez eu ouvi de uma amiga: leia os clássicos! Obedeci e li. Agradeço a ela até hoje. Dos vivos eu leio pouco. Exceção é o Philip Roth. Saiu um novo que acabei de ler; Indignação. Bom, muito bom. O Raymundo Faoro, intelectual de primeira linha que tive o privilégio de conhecer no fim da vida, também me ronda com seu Os Donos do Poder. É ler o Faoro e entender na hora o que acontece no senado. Eles não são assim, pulhas e escroques. Nós somos assim. Eles são nosso espelho. Fomos subdesenvolvidos. Passamos a terceiro mundo (não sei bem quem era o segundo mundo), viramos “em desenvolvimento” e agora somos emergentes. Somos, de fato, “submergentes”. Submergimos no consumo importado do norte, na malandragem nossa, no ritmo e no sexo indolente de nossas meninas. O Brasil vai. Que vai, vai, mas, e nós? Vamos com ele ou só eles vão com ele? Eu não vou. Fico em casa lendo e, vez por outra, mando e-mail para a Daisy que, sabe-se lá como, tem paciência para ler-me. Fora isto, um chopinho quando a tosse sarar e um cantinho na Vila para morar. É o suficiente. Enquanto existirem as letras e alguém para combiná-las, haverá o que ler, que é prazer, que, em resumo é viver. Não sei por que, antes de terminar, lembrei do Borges, dos seus labirintos, do universo que ele também chamava de biblioteca. É um que faz falta. Acho que o tal labirinto espelha o momento. Muita atividade, caminhos e mais caminhos e para onde? Sem falar no Minotauro que lá vive e, se nos encontra, nos devora. Nosso maior: Guimarães Rosa disse: “viver é muito perigoso”. Pois não é que ele tinha razão!
Beijos
Dos amigos
(***) trabalhando para viver e
Alexandre Bloom fazendo força para nascer.
Bateu saudade. Como vão as coisas? Boas novas? Daqui não tão novas. Peguei gripe. Não foi suína, profunda humilhação seria para um corintiano, mas foi suficiente para deixar uma tosse das mais irritantes. Boa notícia: leio mais. Sobra tempo à noite às vezes durante a semana e eu leio: livros, artigos de revistas, jornais de ontem, e papeladas de modo geral. É bom ler. As letras me absorvem e tenho a impressão de entrar num papo inteligente com alguém íntimo. Intelectualmente íntimo apenas. Boa sensação. E, imagine um papo sem gerúndios. Humores sutis e o silêncio das idéias. Não sei se você concorda, mas idéias são silenciosas, se alimentam do silêncio e buscam expressão muda, fixa, impressa. Frases também interessam. Fico admirado cada vez que ouço uma frase bem cunhada. O resumo do todo na frase. Se o bom Platão estiver certo e existir o tal do demiurgo, algumas frases são chaves de suas caixinhas arquetípicas. Abrem o ferrolho do conhecimento, da apreensão da idéia. Por isso eu leio. Simplesmente porque dá prazer. Ontem li sobre o Tolstoi. Imagine que em Guerra e Paz ele cria em torno de quinhentos personagens. Um gênio. Li há muito. Uma vez eu ouvi de uma amiga: leia os clássicos! Obedeci e li. Agradeço a ela até hoje. Dos vivos eu leio pouco. Exceção é o Philip Roth. Saiu um novo que acabei de ler; Indignação. Bom, muito bom. O Raymundo Faoro, intelectual de primeira linha que tive o privilégio de conhecer no fim da vida, também me ronda com seu Os Donos do Poder. É ler o Faoro e entender na hora o que acontece no senado. Eles não são assim, pulhas e escroques. Nós somos assim. Eles são nosso espelho. Fomos subdesenvolvidos. Passamos a terceiro mundo (não sei bem quem era o segundo mundo), viramos “em desenvolvimento” e agora somos emergentes. Somos, de fato, “submergentes”. Submergimos no consumo importado do norte, na malandragem nossa, no ritmo e no sexo indolente de nossas meninas. O Brasil vai. Que vai, vai, mas, e nós? Vamos com ele ou só eles vão com ele? Eu não vou. Fico em casa lendo e, vez por outra, mando e-mail para a Daisy que, sabe-se lá como, tem paciência para ler-me. Fora isto, um chopinho quando a tosse sarar e um cantinho na Vila para morar. É o suficiente. Enquanto existirem as letras e alguém para combiná-las, haverá o que ler, que é prazer, que, em resumo é viver. Não sei por que, antes de terminar, lembrei do Borges, dos seus labirintos, do universo que ele também chamava de biblioteca. É um que faz falta. Acho que o tal labirinto espelha o momento. Muita atividade, caminhos e mais caminhos e para onde? Sem falar no Minotauro que lá vive e, se nos encontra, nos devora. Nosso maior: Guimarães Rosa disse: “viver é muito perigoso”. Pois não é que ele tinha razão!
Beijos
Dos amigos
(***) trabalhando para viver e
Alexandre Bloom fazendo força para nascer.
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